A Última Noite,
por Natasha Romanova
A noite chega sem grandes encantos,
entre nuvens cinzas e um ponto distante no céu que os meus olhos não conseguem distinguir.
Disseram-me ser marte.
Marte... desencantado.
Um planeta morto, estéril, vermelho.
Vermelho como deveria ser o meu sangue, estéril como minha alma e morto como os benjamins de minha infância.
A noite chega.
E talvez seja a última noite para a borboleta negra, que em seu vôo cego, enrosca-se em teias de aranhas azuis.
Teias frágeis como suas asas despedaçadas.
Teias também despedaçadas.
Mundos despedaçados
Sim. Será a última noite.
Será...
Porque não pode haver mais noite, se não há mais paixão.
E não haverá sequer uma nova manhã com pintassilgos pousados nas obscenas janelas de vidro.
A noite chega, e com ela os predadores devoram suas presas e sugam suas vidas.
A última noite.
Porque não existem mais sonhos para serem sonhados, nem canções, nem poesias.
E flocos de neves derretem em suor nas testas de ogros assassinos.
A última noite na terra.
Porque os animais estão mortos, os jardins sem vida, as nuvens sem chuva.
E trenós puxados por renas não permanecem na memória das velhas e calvas crianças.
A única noite.
Onde bruxas gargalham voando em suas vassouras
E os loucos recobram a razão.
A bela noite.
Infestada de elfos que galopam em seus unicórnios coloridos
E tempestades com raios negros castigam a escuridão.
Não haverá mais noite.
Porque em volta de uma lua nua mil dragões cospem fogo nas estrelas
E os oceanos rebeldes tentam com suas ondas apagarem o incêndio no céu.
Tudo o que resta são cinzas no firmamento e pingüins no gelo.
Esta foi a mais bela das noites, a mais breve, a mais perfeita
A minha última noite.
Acabaram-se as noites.
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A foto é de uma miniatura feita por Mauro Jucá.
