MAX,
por Natasha Romanova
O que narro aqui foi um dos casos mais fascinantes que aconteceu comigo, nos meus longos anos de psiquiatria. Eu estava em meu consultório quando um amigo pediu que eu atendesse Max, mas não me deu nenhum detalhe sobre ele.
Max não era um homem vulgar, longe disso. Ao contrário era um homem raro. Inteligente, espirituoso, bem humorado, um verdadeiro artista. Bom gosto musical, poucos amigos. Falava somente o necessário, mas o suficiente para ser alvo de admiração. Não julgava ninguém e ainda por cima era de uma fidelidade assustadora. O que mais apreciei em Max foi sua inabalável fé na humanidade. Era um homem feliz.Tinha seu emprego. Muito caseiro, ia de casa para o trabalho, do trabalho para casa. Na hora do almoço pegava algumas fitas de vídeo, para passar suas noites.
Um dia, Max acordou mais tarde do que o normal. Achou estranho sua gata não o acordar como sempre fazia. Levantou-se, ainda sonolento, colocou os óculos, acendeu um cigarro. Procurou por toda a casa pela gata, viu o prato de comida dela intocado. Começou a achar estranho esses sumiços repentinos de Felícia. Por vários dias ele saia de casa na madrugada, e rodava pelo condomínio atrás dela, chamava, chamava e ela não atendia. Ia deitar-se e tinha pesadelos. Amava sua gata. Max em seus pesadelos via Felícia morta, foi aí que resolveu falar com amigo que eu comentei no início. E este aconselhou-o a procurar-me. Ele assim o fez.
Na verdade, Felícia, já havia morrido há muitos meses, mas o trauma foi tão grande, que ele deixou-se levar por uma fantasia de que era mentira, que ela continuava viva. Ela tinha 7 anos e ele a tratava como se fosse um pessoinha de verdade. Se davam super bem. Eram carinhosos um com um outro. Quando ele chegava ela reconhecia o barulho do carro e corria ao encontro dele. Assistiam TV juntos, e tinham aquela relação que todo mundo conhece e já sentiu com seu animal de estimação. Ele sentia-se culpado pela morte dela. Felícia adoeceu e ele levou-a a vários veterinários. Nenhum soube diagnosticar o que ela tinha. Até que um dia, um deles disse que ela tinha que ser operada. Ele pensou muito e resolveu assumir o risco. Ela morreu. Max não agüentou. Sofreu desesperadamente. Foi então que os amigos, família e vizinhos começaram a notar seu estranho comportamento. Apesar de ser normal em tudo, Max tinha esse desvio. Continuou a achar que Felícia vivia. Comprava ração, saía com “ela” ,duas vezes ao dia, pelo condomínio, para ela fazer as necessidades, trocava a água, e ficava falando sozinho pela casa como se ela ainda estivesse lá. Ninguém se importava com essa maluquice. Aceitavam bem. Os amigos chegavam e ele apontava para o nada mostrando como Felíciaestava gorda e brincalhona. E assim continuava sua vida normalmente.
Deixei Max bem a vontade. Ele então começou a falar sobre a gata, sobre seus gostos, mas não falava muito de sua vida pessoal. E aos poucos foi se recordando de tudo, embora não admitisse totalmente a idéia de que ela havia morrido. Pacientemente, fomos trabalhando no sentido de que ele tinha que assumir essa realidade. Apesar de Max ainda continuar vendo Felícia de vez em quando, sentindo que ela estava presente, com o tempo, estas “visões” foram tornando-se raras. Max finalmente não a viu mais. Convenceu-se de sua morte. Assumiu sua dor e seu pesar. Estava curado.
Hoje passou aqui no meu consultório para receber alta. Conversamos sobre muitas coisas, tornamo-nos bons amigos. Disse-lhe que já estava bem, que não precisaria mais vir ao consultório, estava liberado para recomeçar sua vida. Max me agradeceu e disse-me com um enorme sorriso:
- Doutor, obrigado por tudo. Quem vai ficar tão feliz quanto eu será Kelly, minha esposa, o Sr. pode ligar para ela e dizer que estou curado? Kelly tem sido muito compreensiva e paciente, ter me agüentado esse tempo inteiro.
- Kelly ? - Perguntei eu surpreso - Não sabia que você era casado, mas claro, com prazer, ligarei agora mesmo.
Peguei o telefone e disquei o número da casa de Max. Uma mulher atendeu com uma voz meio fanhosa:
- Residência do Seu Max.
- Gostaria de falar com Kelly, a mulher dele, por favor.
- Sinto muito moço, mas a D. Kelly morreu faz mais de um ano.
Gostou? Não gostou? Comente aí, logo abaixo! Sugestões de textos envie para ronaldo_grunge@hotmail.com. Como sempre, a imagem deste post é de uma miniatura produzida por Mauro Jucá.

Um comentário:
você escreve muito bem!
A simplicidade da escrita torna seu texto mais prazeroso na leitura.
Muitos cronistas dão voltas e voltas pra descrever uma agulha... Tive medo, confesso...
Mas adorei!
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